O Trabalho por trás da Ilustração



Como falamos no artigo Ilustrador – Compositor e Intérprete Ao Mesmo Tempo, entendemos que um ilustrador faz um composição artística quando produz uma ilustração.


Uma ilustração não é somente um desenho. Por trás de uma composição, há muito trabalho envolvido. Trabalho que o cliente – e a maioria das pessoas – não vê e às vezes nem sabe que existe.


Para começar, um ilustrador é que transmite, visualmente, uma ideia ou um conceito. Quando o cliente solicita uma ilustração, é necessário entender qual a mensagem que ele pretende transmitir aos seus leitores.


Você pode imaginar a complexidade em tentar produzir, visualmente, uma ideia que está na cabeça de outra pessoa? Transformar em visível aquilo que é abstrato, e nem é você quem está pensando?


Mais que ilustradores, somos criadores de imagens. Por mais que o cliente passe um briefing do que deseja, é o ilustrador que vai determinar a forma, as cores e o estilo de um personagem, por exemplo.


Vários aspectos fazem parte da concepção de uma ilustração. Precisamos entender o conceito que o cliente quer passar, captar o que está nas entrelinhas, fazer um interpretação do texto ou da ideia. 


Além disso, a obra final precisa ser harmônica, transmitir não somente a mensagem, mas também emoções e sensações. É necessário analisar os aspectos da composição, os melhores pontos de vista para aquele determinado trecho da narrativa, o sentido de leitura que vai orientar o leitor, entre outras técnicas de composição que estudamos para que o resultado final da ilustração seja agradável aos olhos de nossos pequenos leitores.

Todo esse trabalho criativo nem sempre é considerado, e muitas vezes as pessoas nem tem ideia de que existe. E isso leva tempo.

Ilustradores são ‘tradutores’ e ‘intérpretes’ visuais. Ingrid Osternack

Para produzir uma ilustração, há que se pesquisar, pois não podemos desenhar algo que não conhecemos. Ainda que existam mundos imaginários, e possamos explorar nosso lado criativo nessas horas, há muitas histórias que se passam em lugares conhecidos. E mesmo os mundos imaginários tem inspiração em cenários reais.  O tipo de cenário de um livro que se passa na Escandinávia é completamente diferente de um cenário no Caribe. E isso tem que ser levado em consideração. Por mais que tenhamos nossa “licença artística”, dependendo do trabalho que você faz, às vezes o cliente quer algo que seja verdadeiro. Mesmo pesquisando muito, já fiz ilustração com os protagonistas numa casa, quando eles tinham habitado numa tenda. Isso não dizia no texto, e mesmo ao pesquisar, esse detalhe escapou. O autor fez o comentário e modifiquei, uma vez que era um livro infantil baseado em uma história real.


Eu havia pesquisado bastante, e esse acontecimento me fez pesquisar ainda mais sobre os assuntos que costumo ilustrar. Isso demanda tempo e faz parte do processo de construção de uma ilustração. Uma vez publicado o livro, se erramos algo, fica marcado praticamente para sempre.


Outro aspecto são os rascunhos para concepção dos personagens. É preciso imaginar como cada personagem é e como ele se vestiria, e se comportaria tendo determinada personalidade.


É óbvio que algumas pessoas pensam que os computadores fazem tudo. Minhas ilustrações não são digitais, mas alguns clientes imaginam que são os softwares que fazem todo o trabalho. Que é rápido e não requer nenhuma habilidade. Mas tanto as tintas quantos os softwares são apenas instrumentos, assim como também é um fogão para um chef de cozinha. Uma pessoa com habilidade e criatividade na cozinha faz pratos maravilhosos, enquanto outra pessoa, mesmo que tenha um fogão mais novo, com mais recursos e mais tecnologia, pode vir a não fazer sequer um ovo cozido.


Também é assim com o ilustrador: não basta ter todos os instrumentos, se faltam ideias, técnicas, habilidades, criatividade, inovação e até mesmo vontade. Sim, diria que ter vontade é 50% do trabalho. Porque para começar, a gente tem que ter vontade de fazer. Meu irmão costuma usar a frase: “Quem quer, arruma um jeito, quem não quer, arruma uma desculpa”. Muitas vezes, e me incluo nisso, não realizamos o que queremos porque ficamos protelando, dizendo que não temos tempo, que não é a melhor hora, que não temos recursos, que não sabemos nem por onde começar. Quantas vezes já usei essas desculpas…


Li há alguns dias que, se sonhamos acordados com alguma coisa, só o fato de imaginar já deixa a gente feliz. E é por isso que não tomamos atitudes diante do que queremos fazer. Não sei, de fato, se é assim, mas explicaria a razão da gente procrastinar e esperar o momento certo pra agir em favor de nossa realização profissional.


Mas voltando ao nosso tema, ser ilustrador requer muito mais que saber unir linhas e formas. É preciso ter noções de desenho, conhecer técnicas, materiais adequados, conhecer algumas regras de composição, e até mesmo definir o que se quer. Embora eu use o computador, tenha uma mesa digitalizadora e softwares para desenho, gosto de usar materiais artísticos para fazer minhas ilustrações. Isso acontece porque eu optei por isso e decidi que esse seria o meu jeito de fazer ilustrações. Faz parte do meu estilo. Não faço isso porque não sei usar os softwares, mas porque quero exercer a minha profissão utilizando os materiais que me agradam.


Algumas características que são valorizadas num ilustrador:


. compreender as necessidades e ideias do cliente


. entender sobre o nicho ou público que será atingido pelo mensagem da ilustração


. desenvolver ideias visuais para acompanhar a narrativa, que atendam às expectativas do cliente (editor ou autor)


. ter habilidades de desenho e da técnica escolhida para execução do trabalho


. cumprir metas e prazos


. entregar o trabalho conforme a solicitação do cliente (resolução, tipo de arquivo, etc)


Além disso, é imprescindível ter noções de administração, contabilidade, direito e marketing.


Antigamente, o ilustrador enviava os originais para a editora, que fazia todo o restante. Atualmente, o trabalho do ilustrador se expandiu de tal maneira, que às vezes enviamos tudo pronto, ajudamos a divulgar o livro, e a gerar a expectativa antes mesmo do lançamento da obra.


Concluindo, ser ilustrador não é apenas ser um desenhista. Desenhar é, sim, muito importante, mas é apenas uma parte. É necessário saber contar ideias visualmente, ser curioso, aprender mais sobre cultura, querer ter mais conhecimento, aprimorar-se sempre, desenvolver seu estilo e, principalmente, ter o desejo de criar. 🙂

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